De Pelé à 'Mão de Deus': a história do Azteca, o único estádio a sediar três Copas do Mundo
De Pelé à 'Mão de Deus': a história do Azteca, o único estádio a sediar três Copas do Mundo Getty Images No dia 11 de junho de 2026, quando México e Áf...
De Pelé à 'Mão de Deus': a história do Azteca, o único estádio a sediar três Copas do Mundo Getty Images No dia 11 de junho de 2026, quando México e África do Sul entrarem em campo pela partida de abertura da Copa do Mundo, um estádio de quase 60 anos cumprirá um feito que nenhum outro alcançou: receber três Copas. O Estádio Azteca, na Cidade do México, já havia sido sede dos Mundiais de 1970 e 1986 — e agora se torna o único do planeta a ter abrigado a competição em três edições diferentes. Mas a relevância do Azteca para a história do futebol não se resume ao número de Copas. Foi ali que Pelé conquistou seu último título mundial e onde Diego Maradona protagonizou, em poucos minutos, o gol mais polêmico e um dos mais celebrados de todos os tempos. LEIA TAMBÉM: Brasil já ganhou Copa do Mundo no México; veja como cidade do tri de Pelé se prepara para receber mais um Mundial Um colosso erguido para o Mundial de 1970 A construção do estádio começou em 1962, sob o projeto dos arquitetos mexicanos Pedro Ramírez Vázquez e Rafael Mijares Alcérreca, e levou cerca de quatro anos para ser concluída. O Azteca foi inaugurado em 29 de maio de 1966, em um amistoso entre o Club América e o Torino, da Itália, que terminou empatado em 2 a 2. Coube a um brasileiro, Arlindo dos Santos, marcar o primeiro gol da história do estádio. Dos Santos é festejado pelo América mexicano como um dos maiores jogadores da história do clube. Concebido para mais de 100 mil espectadores, o Azteca nasceu como um dos maiores estádios do mundo e, desde o início, foi pensado como vitrine para grandes eventos. Antes mesmo de sediar uma Copa, recebeu partidas de futebol dos Jogos Olímpicos de 1968 — e ali se registrou um dos maiores públicos de sua história, com quase 120 mil pessoas no jogo entre México e Brasil. Estádio Azteca em outubro de 1968, durante os Jogos Olímpicos Getty Images 1970: a despedida triunfal de Pelé das Copas Quatro anos após a inauguração, o estádio recebeu sua primeira Copa do Mundo, em 1970. Considerada uma das melhores seleções de todos os tempos, a equipe brasileira chegou à competição liderada por Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. A seleção brasileira vinha dos títulos mundiais de 1958 e 1962 e era uma das favoritas ao campeonato, com jogadores como Gérson, Carlos Alberto, Tostão, Rivellino e Jairzinho no elenco. Pelé abriu o placar aos 18 minutos com uma cabeçada após receber passe de Rivellino. Roberto Boninsegna empatou para a Itália aos 37. Mas o furacão brasileiro voltou a se impor com os gols de Gérson (21 minutos do 2º tempo), Jairzinho (25 minutos) e Carlos Alberto (41 minutos). Foi nessa partida que o Brasil conquistou o tricampeonato mundial, em um jogo que também marcou a despedida de Pelé das Copas do Mundo. Estádio Azteca foi palco de conquista histórica do Brasil de Pelé Getty Images Antes da decisão, o estádio já havia sido palco de uma das partidas mais lembradas da história das Copas. Na semifinal entre Itália e Alemanha Ocidental, os alemães empataram a partida por 1 a 1 aos 90 minutos e levaram o confronto para a prorrogação. O tempo extra se transformou em uma sequência frenética de reviravoltas: cinco dos sete gols da partida foram marcados em apenas 30 minutos, em um duelo que terminou 4 a 3 para os italianos. A Fifa descreve aquela prorrogação como "uma das meias horas mais magníficas que uma audiência de massa já viu no futebol". O confronto ficou conhecido como o "Jogo do Século" e foi tão marcante que o Estádio Azteca instalou posteriormente uma placa para eternizar a partida disputada em 17 de junho de 1970. O 'Jogo do Século', entre Itália e Alemanha Ocidental, na semifinal da Copa de 1970 Getty Images 1986: a 'Mão de Deus' e o 'Gol do Século' A 'mão de Deus', um dos momentos mais célebres da história do esporte, também ocorreu no Azteca Getty Images Dezesseis anos depois, com o México novamente como anfitrião, o Azteca voltou a ocupar o centro da Copa. Em 22 de junho de 1986, nas quartas de final entre Argentina e Inglaterra, Maradona marcou dois gols no intervalo de poucos minutos — e cada um deles entrou para a história por motivos opostos. O primeiro saiu da mão esquerda do camisa 10, em uma infração ignorada pela arbitragem. Anos mais tarde, o próprio Maradona resumiria o episódio como um gol marcado "com a cabeça de Maradona e a mão de Deus". O segundo, no entanto, foi indiscutível: uma arrancada que driblou metade da defesa inglesa e que a Fifa elegeria, em votação, como o melhor gol da história das Copas. A Argentina venceu por 2 a 1, em uma partida marcada pela tensão política deixada pela Guerra das Malvinas, ocorrida quatro anos antes. Na final de 1986, a Argentina superou a Alemanha Ocidental por 3 a 2. Com isso, o Azteca consolidou uma marca singular: é o único estádio do mundo a ver tanto Pelé quanto Maradona se sagrarem campeões mundiais. Foi também na Copa de 1986 que a "ola" — a onda feita pela torcida nas arquibancadas — ganhou projeção global. Historiadores do esporte costumam associar a popularização mundial do gesto justamente ao público mexicano daquele Mundial. Para os mexicanos, porém, o Azteca também está associado a um dos maiores momentos da história esportiva do país: a conquista da Copa das Confederações de 1999, quando a seleção local derrotou o Brasil por 4 a 3 diante de mais de 110 mil torcedores. Até hoje, trata-se do principal título da equipe principal masculina do México em competições organizadas pela Fifa. O estádio também foi palco de um dos episódios mais traumáticos para o futebol mexicano. Em 2001, a Costa Rica venceu o México por 2 a 1 nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002, impondo aos anfitriões sua primeira derrota em casa em partidas classificatórias para Mundiais. O resultado ficou conhecido como "Aztecazo". Reforma, novo nome e o terceiro Mundial Para a Copa de 2026 — disputada por 48 seleções, a maior da história, em sedes do México, dos Estados Unidos e do Canadá —, o Azteca passou por uma ampla reforma, iniciada em 2024 a pedido da Fifa. As obras incluíram melhorias de conforto, novos assentos, conectividade para os torcedores e gramado híbrido, com a capacidade ajustada para cerca de 90 mil lugares. As reformas recentes não foram as primeiras a gerar controvérsia. Ao longo das últimas décadas, o estádio passou por intervenções que reduziram gradualmente sua capacidade e ampliaram áreas VIP, camarotes e suítes corporativas, mudanças criticadas por parte dos torcedores por alterarem a estética e a experiência tradicional do Azteca. O gramado também já esteve no centro de polêmicas. Em 2018, a NFL, liga de futebol americano dos EUA, cancelou uma partida de temporada regular que seria disputada no estádio mexicano após reclamações sobre as condições do campo, afetado por eventos realizados fora do futebol. A reforma veio acompanhada de uma mudança que gerou desconforto entre parte da torcida: o estádio passou a se chamar oficialmente Estádio Banorte, em razão de um acordo de patrocínio com o banco de mesmo nome, avaliado em torno de 100 milhões de dólares por 12 anos. Não é a primeira troca de nome do estádio em seis décadas: entre 1997 e 1998, ele se chamou Estádio Guillermo Cañedo, em homenagem ao dirigente da Fifa e do América morto em 1997, antes de voltar a se chamar Azteca. O novo contrato, que dá nome ao estádio desde março de 2025, é um acordo de financiamento que se estende até 2037. Durante a Copa, porém, as regras de patrocínio da Fifa impedem o uso do nome comercial, e a arena será identificada como "Estádio Cidade do México". Para a maioria do público segue sendo, simplesmente, o Azteca. Ao todo, o estádio receberá cinco partidas no Mundial de 2026, incluindo o jogo de abertura. E, na noite de 11 de junho, ao sediar a cerimônia e a primeira partida do torneio, completará a façanha inédita de abrir três Copas do Mundo. A Copa que chega entre cartazes de desaparecidos Pichação em espanhol com as palavras 'México campeão em desaparecimento' Getty Images A poucos dias da abertura, o entorno do estádio virou cenário de outro tipo de mobilização. Familiares de pessoas desaparecidas colaram cartazes com fotos de seus parentes nas imediações do estádio. Os arredores do palco da inauguração ficaram tomados por imagens de rostos procurados e por faixas de cobrança ao governo. As chamadas "madres buscadoras" levaram faixas que cobravam atenção para uma crise que dizem ignorada — uma delas estampava que faltam mais de 134 mil pessoas — e entoaram palavras de ordem como "por que os procuramos? Porque os amamos". O México contabiliza mais de 130 mil pessoas desaparecidas e não localizadas, segundo os registros citados pelos familiares. Mães de pessoas desaparecidas no México distribuíram panfletos e protestaram Gerardo Vieyra/NurPhoto via Getty Images Parte das críticas mira o contraste de recursos. Manifestantes afirmam que a Copa mobilizará mais de 10 mil agentes de segurança pública, enquanto as famílias que buscam seus parentes contam com menos de 20 policiais durante as escavações. A mobilização ganhou força após um relatório do Comitê da ONU contra os Desaparecimentos Forçados (CED), divulgado em abril de 2026, que apontou indícios de que desaparecimentos no país possam configurar crimes contra a humanidade. O governo da presidente Claudia Sheinbaum rejeitou a avaliação, alegando falhas metodológicas e sustentando que o Estado não usa o desaparecimento como mecanismo de repressão. Assim, o mesmo gramado que coroou Pelé e Maradona se prepara para abrir, em 11 de junho, uma Copa do Mundo cercada não só pela expectativa esportiva, mas também por uma das discussões mais sensíveis do país anfitrião. Mães de pessoas desaparecidas no México distribuíram panfletos e protestaram Getty Images